Ex-prefeito Furlan é investigado pela PF em operação que apura desvio de R$ 25 milhões para financiar rede digital, seu aliado, prefeito de Macaé enfrenta ação eleitoral em que Procuradoria pede cassação por suposto esquema semelhante. Os dois construíram parceria estratégica para os negócios do petróleo no Amapá.
O que começou como uma parceria apresentada por Antônio Furlan como modelo para preparar Macapá para a exploração de petróleo na Margem Equatorial ganhou, meses depois, um componente político incômodo. Furlan e o prefeito de Macaé, Welberth Rezende, hoje estão ligados a investigações e processos que colocam sob suspeita o uso de estruturas financiadas com dinheiro público para promoção política noambiente digital. De um lado, a chamada “milícia digital” investigada pela Polícia Federal no Amapá. Do outro, o “cartel digital” apontado pela Procuradoria Regional Eleitoral do Rio de Janeiro.
No Amapá, Furlan foi alvo da Operação Palanque Digital, deflagrada pela Polícia Federal em maio. A investigação apura o suposto desvio de aproximadamente R$ 25 milhões destinados à comunicação pública da Prefeitura de Macapá para financiar influenciadores, veículos e empresas de comunicação que, segundo a PF, teriam atuado em uma rede de desinformação, autopromoção política e ataques contra adversários. A operação cumpriu 35 mandados de busca e apreensão em Macapá, Belém e Canela.
Mais de três mil quilômetros distante de Macapá, o parceiro escolhido por Furlan para orientar a capital amapaense sobre a cadeia do petróleo enfrenta questionamentos de natureza semelhante. A Procuradoria Regional Eleitoral do Rio de Janeiro pediu a cassação do diploma do prefeito de Macaé, Welberth Rezende, no processo que apura suposto abuso de poder político e econômico e uso indevido dos meios de comunicação nas eleições de 2024.
Segundo o parecer da Procuradoria, estrutura e recursos públicos municipais teriam sido utilizados para sustentar uma rede de veículos digitais destinada a promover Welberth e divulgar conteúdo desfavorável aos adversários, assim como em Macapá.
É justamente Welberth Rezende quem Furlan escolheu como parceiro estratégico para colocar Macapá no circuito econômico do petróleo. Em junho de 2025, os dois assinaram um Termo de Cooperação Técnica entre Macapá e Macaé, voltado diretamente à preparação da capital amapaense para a cadeia produtiva do petróleo e gás. O acordo previa transferência de conhecimento, planejamento urbano, desenvolvimento econômico, formação profissional e estratégias para atração dos investimentos ligados ao setor petrolífero.
A coincidência agora levanta questionamentos políticos inevitáveis. Por que Furlan escolheu justamente a gestão de Welberth como uma das referências paraestruturar aentrada de Macapá na economia do petróleo? Que modelo político e administrativo está sendo importado para o Amapá? E quais interesses cercam uma parceria construída para atuar em torno de um setor que pode movimentar bilhões de reais nos próximos anos?
As semelhanças entre os dois casos chamam atenção. No Amapá, investigadores apuram se recursos da comunicação oficial foram desviados para sustentar uma rede digital de promoção política e ataques. Em Macaé, a Procuradoria Eleitoral sustenta que recursos e estrutura da prefeitura teriam ajudado a construir uma rede de mídia para favorecer eleitoralmente o prefeito. Mudam os nomes “milícia digital” em Macapá e“cartel digital” em Macaé , mas o dinheiro público e a promoção política aparecem no centro das duas acusações.

