Manifestação ocorre em meio à repercussão de declaração de delegado da Draco sobre Furlan e ao debate sobre a participação de integrantes da Polícia Civil em um assunto que ganhou contornos político-eleitorais.
A Associação dos Delegados de Polícia do Estado do Amapá (Adepol-AP) divulgou uma dura nota de repúdio neste domingo (14), após a divulgação de uma coletiva de imprensa atribuída a um grupo de delegados. No documento, a entidade afirma que não convocou, não autorizou e não realizará qualquer reunião para apresentar a nota e deixa claro que manifestações individuais de delegados não representam o posicionamento institucional da associação. A Adepol também sustenta que a tentativa de usar seu nome em uma iniciativa de caráter político-eleitoral viola a imparcialidade esperada da carreira.
A reação ocorre depois de o delegado Estéfano da Silva Santos, titular da Delegacia de Repressão ao Crime Organizado (Draco), vir a público para afirmar que as investigações conduzidas por sua unidade não apresentam indícios que relacionem o candidato ao Governo do Amapá Antônio Furlan (PSD) a facções criminosas. A declaração foi dada após reportagem nacional da Record abordar acusações feitas por Luanderson de Oliveira Alves, o Caçula, ex-candidato a vereador pelo PSD. Caçula teve o diploma cassado e foi declarado inelegível por oito anos pelo TRE-AP, que reconheceu que sua campanha de 2024 se beneficiou da estrutura e do domínio territorial da facção Família Terror do Amapá.
A fala do delegado, porém, tem um alcance específico: refere-se às investigações da Draco sobre facções criminosas e não representa uma absolvição de Furlan em outros procedimentos. O candidato já foi alvo de investigações federais distintas. Em março, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, determinou o afastamento de Furlan da Prefeitura de Macapá, atendendo a pedido da Polícia Federal com aval da Procuradoria-Geral da República, em investigação sobre suspeitas de desvio de recursos federais destinados à construção do Hospital Municipal. A decisão também autorizou buscas e quebras de sigilo.
Em maio, Furlan voltou a ser alvo da Polícia Federal na Operação Palanque Digital, que apura suspeita de desvio de cerca de R$ 25 milhões de contratos de publicidade da Prefeitura para financiar uma estrutura digital destinada, segundo a investigação, à autopromoção política, produção de conteúdo manipulado e ataques contra adversários. A PF apura possíveis crimes contra a administração pública, organização criminosa, lavagem de dinheiro e delitos eleitorais. A existência dessas investigações, contudo, não equivale a condenação, e elas também não provam, por si mesmas, ligação de Furlan com facções — justamente o ponto específico abordado pelo delegado da Draco.
É nesse ambiente que a nota da Adepol ganha peso político. A entidade afirma respeitar a manifestação individual e a preferência política de seus associados, mas rejeita que posições pessoais sejam apresentadas como manifestação coletiva dos delegados do Amapá. A controvérsia agora deixa de ser apenas sobre Furlan e passa também pela própria imagem da Polícia Civil em plena campanha eleitoral: até onde vai uma manifestação técnica de um delegado e onde começa o risco de ela ser apropriada politicamente por uma candidatura? Furlan, por sua vez, nega envolvimento com facções criminosas.

